A CIDADE SOB O DOMÍNIO HOLANDÊS
No
final do século XVI a Holanda[1] já
surgia como uma potência dos mares, chegando, em meados do
século
XVII, a ter a maior frota mercante do mundo.
Os holandeses mantinham intensa
relação
com Portugal e suas colônias,
especialmente com o nordeste brasileiro, onde
participavam de todo o ciclo da
indústria
açucareira: implantação de engenhos, financiamento
de insumos e mão-de-obra até a comercialização
na Europa. Chegaram a manter usinas de beneficiamento de açúcar
em Amsterdam, para onde levavam o açúcar grosso que
era taxado com valor bem abaixo do açúcar branco.
Assim, detinham conhecimentos e estrutura suficientes para concorrer
nesse comércio
com os portugueses. Em 1580, com a anexação
de Portugal à Coroa
Espanhola, toda essa atividade foi suspensa por Filipe II
da Espanha que combatia o movimento pela independência
dos neerlandeses.
Para retomar o mercado os holandeses
criaram em 1621 a Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische
Compagnie), formada em grande parte com apoio
financeiro dos cristãos novos[2] através
da Câmara de Comércio de Amsterdam. A WIC patrocinaria, então,
invasões
ao Brasil visando monopolizar não somente o comércio
açucareiro como também o de
escravos, pois a idéia era controlar todo o tráfego
marítimo do
atlântico sul. Em 1624 invadiram a cidade de Salvador,
capital da colônia, onde permaneceram por um ano até serem
expulsos pela esquadra de Fradique Toledo Osório.
Em 1630, após vários anos preparando nova ofensiva,
invadiram a captania de Pernambuco que, por não ser uma
capitania com obrigações
da
Coroa
era dotada
de
pouca
proteção
militar, o que facilitou a tomada das vilas de Olinda e Recife.
A Capitania de Pernambuco esteve sob domínio holandês
até 1654.
No início
de 1634 a Companhia das Índias
Ocidentais divulgou relatório dos
delegados no Brasil, Van Ceulen e Johan Gyselingh onde estes informavam "...as
praças fortes que ainda restam nesta região são
Paraíba e Cabo Santo Agostinho... porque desses dois lugares
depende a conquista destas quatro capitanias do norte..."
exigindo ações que culminariam com uma segunda invasão
melhor estruturada e fariam capitular as defesas da cidade.
Em dezembro de 1634 as forças
do general Van Schkoppe, com mais de 2300 homens, sitiaram a fortaleza
de Cabedelo durante 19 dias. Após muita
resistência, fome, sede e doenças, nossas defesas
ruíram. Os holandeses
adentraram a Filipéia de Nossa Senhora das Neves e mudaram-lhe
o
nome para Frederica (Friederickstadt) em homenagem a Frederico
Henrique de Nassau, Príncipe de Orange. Para garantir a
posse do território logo iniciaram a reconstrução
da Fortaleza e confiscaram 19 engenhos da
várzea do rio Paraíba.
O Conselheiro Político
Servaes Carpentier assumiu o cargo de governador com jurisdição
até a
Capitania do Rio Grande (do Norte). Seu governo durou apenas
1 ano e teve muitos problemas para administrar pois muitos proprietários
antevendo o resultado da invasão abandonaram suas terras
após queimar os canaviais e danificar os engenhos. O jovem
André
Vidal de Negreiros, paraibano que seria mais tarde o grande Mestre-de-Campo
da Insurreição Pernambucana, deu o exemplo quando
queimou todo o canavial das terras paternas. A Companhia das Índias
Ocidentais (WIC) precisava de muita produção
para compensar seus investimentos. Então ofereceram
anistia, liberdade de culto religioso,
manutenção do regime de propriedade e proteção
dos negócios aos naturais da terra. A
proposta foi aceita por muitos, dentre eles Duarte Gomes da Silveira,[3] natural
de Olinda, que era proprietário muito rico e poderoso na
Paraíba.
O segundo governador, Ippo Eyssens
era arbitrário,
fêz um mau governo e em 1636 foi morto numa emboscada preparada
pelas tropas do Capitão
Rabello, o Rabelinho, quando assistia
à farinhada num engenho da várzea do Paraíba.
Nessa época os portugueses já iniciavam focos
de resistência, arregimentando escravos e índios para
assaltos relâmpagos em forma de guerrilhas. Essa forma de
combate seria, posteriormente, chamada "guerra
brasílica". Os holandeses não tiveram sucesso
contra as guerrilhas pois, acostumados
ao combate em campo aberto, encontravam muita dificuldade
em se mover nas florestas e mangues da periferia. Além disso,
era considerável a tremenda desvantagem de um soldado frente a um índio
que arremessava 6 flechas enquanto ele municiava seu arcabuz.
Elias Herckmans governou a capitania
da Paraíba de 1636 a 1639. Durante o seu governo foi
criado um Conselho de Representantes da Cidade, formado por holandeses,
portugueses e brasileiros, cujos membros eram denominados escabinos.
O Conselho, adotado também por Maurício de Nassau em
1637 quando chegou em Pernambuco, funcionava como uma câmara
de vereadores. Herckmans, poeta e geógrafo, escreveu um
relatório sobre a capitania intitulado "Descrição
Geral da Capitania da Paraíba" ("Generale Beschrjvinge
van Capitania Paraíba"), datado de 1639, o qual se
tornou a principal fonte de informações sobre a Paraíba
durante o domínio holandês. Herckmans foi, talvez, a
melhor contribuição
holandesa para a cidade.
Gisberk
de With sucedeu Herckmans. Deixou a reputação de homem honesto,
trabalhador e humano.
Paul de Linge: Foi derrotado em 1645
pelos "Libertadores
da Insurreição" e se retirou para a Fortaleza de Santa Catarina em Cabedelo.
Se analisarmos os 11 anos de domínio
holandês (1634-1645), veremos que
eles em nada contribuíram para o desenvolvimento arquitetônico
da cidade. Existia-lhes apenas o interesse
pelo comércio lucrativo da cana-de-açúcar.
Por serem protestantes calvinistas, sequer concluíram
as edificações
de igrejas e conventos que ocuparam como séde administrativa
e militar. Não construíram
residências porque não trouxeram famílias
e as tropas permaneciam nos fortes.
Entretanto, introduziram melhoramentos
em todo o ciclo da produção açucareira quando
instituíram financiamento
para as safras com resgate após
a colheita; revestiram as moendas (que eram em madeira)
com lâminas de metal para diminuir as quebras e aumentar a produtividade;
nesse período
os engenhos da Capitania da Paraíba exportavam, anualmente,
mais de 150.000 arrobas
de açúcar;
de acordo com o historiador Aécio
Villar, citando o economista Celso Furtado, o nordeste brasileiro,
durante o domínio
holandês,
era a região
mais rica do mundo: tinha um produto interno bruto 5
vezes maior do
que a Inglaterra.
Sob a influência de Maurício
de Nassau precuparam-se com o meio ambiente
pois, a partir do controle da monocultura da cana-de-açúcar,
instituíram o equilíbrio
da produção
de alimentos obrigando os proprietários
de engenhos a plantar covas de mandioca em quantidade proporcional
ao número
de escravos ou empregados existentes; proibiram a derrubada
de cajueiros
e
iniciaram o controle da derrubada
excessiva do pau-brasil, instruindo para o corte de árvores
somente acima de 4 anos.
NOTAS
[1]
- A Holanda é a maior das 7 províncias
independentes que formam as Províncias Unidas
dos
Países
Baixos, no delta do rio Reno, e que atualmente integram a União Européia
como
República
Neerlandesa.
Durante
o
império
romano a região era chamada
Batávia. Na historiografia brasileira os
batavos
ou
neerlandeses
são habitualmente designados como holandeses.
- Com a derrota da "invencível armada" de Filipe II (contra
a
Inglaterra
em
1588) a Espanha diminiu a pressão sobre
a
Holanda
em sua "guerra dos 80 anos". Com isso, os holandeses intensificaram
os investimentos em sua frota mercante. "No começo do século
XVII acentuava-se
o primado holandês, chegando os Países-Baixos a construir 1.000
navios em um
só ano!" conforme cita Roberto Cochrane Simonsen em sua História
Econômica do
Brasil.
[2]
Judeus convertidos ao cristianismo durante a Idade
Média. O termo
foi criado no reinado de D. Manoel de Portugal que impôs aos judeus
a conversão religiosa ou a expulsão do país e das suas
colônias.
Entretanto, a maioria dos cristãos novos manteve-se fiel à sua
religião. Esses,
especialmente, eram chamados "marranos", ou cripto-judeus, e criaram
muitas formas de manter suas tradições e praticar o seu culto
sem despertar a atenção
dos perseguidores.
[3]
Duarte da Silveira comandou
o Forte de Santo Antônio na tentativa de invasão
pelos holandeses em 1631. Era rico proprietário e estimulou
os demais a aceitarem o
acordo
oferecido
pelos novos governantes para evitar a perda de tudo o que os nativos
já haviam
conquistado. No palacete onde residia, ao lado da catedral, funcionou
o antigo Colégio N.S. das Neves e hoje funciona a Faculdade
de Ciências
Médicas.
BIBLIOGRAFIA:
ALMEIDA, Horácio
de - História da Paraíba
João Pessoa.Imprensa Universitária.1966
MELLO, J. A. Gonsalves de - Fontes
para a história do
Brasil holandês
Recife.MinC/Fundação Pró-Memória.1985
MELLO, José Octávio de Arruda
- História da Paraíba, Lutas e Resistência
João Pessoa.A União.2002.7ª Edição.
NETSCHER, Petrus Marinus - Os Holandeses no Brasil
São Paulo.Cia.
Editora Nacional.1942
SCHALKWIJK, F. L.- Igreja
e Estado no Brasil Holandês
1630-1654
São Paulo.Casa Editora Presbiteriana.2004.2ª edição

TAGS
historia, west-indische,
compagnie, joao pessoa,
paraiba, holandeses, companhia
das indias ocidentais, van schkoppe, mauricio de nassau, filipe
ii, invencivel
armada
|