A RESTAURAÇÃO
"Como um
dos palcos da guerra de restauração contra o
domínio holandês,
a Capitania da Paraíba
encontrava-se, em 1655, devastada. [...] Para os restauradores
paraibanos, que alardeavam terem feito "a
guerra por muitos anos às
suas custas", os cargos da administração deveriam
lhes pertencer como um direito natural de conquista. Os agraciados
com os escalões da administração paraibana:
na Justiça - exceto o cargo de Ouvidor -, na Milícia
e na Fazenda, após o período da restauração
holandesa, foram
providos como "prêmio",
tendo em vista "os merecimentos" pelo reconhecimento
ao "sangue derramado" em nome da Coroa, como fiéis
vassalos de Sua Majestade. A
Fazenda Real paraibana se reiniciava, portanto, como um espólio
da conquista."
(Mozart
Vergetti de Menezes)
Após
a expulsão dos holandeses, em 1645, um triunvirato, formado
por Lopo Curado Garro, Jerônimo Cadena e Francisco Fomes
Muniz governou a capitania até 1655. A cidade iniciou um
período econômico
crítico que se prolongaria até a metade do século seguinte.
Senão vejamos:
1. A produtividade da capitania
ficou praticamente nula em função
dos proprietários
com finanças
desequilibradas, engenhos quebrados e a exaustiva tarefa de
replantar os canaviais devastados sem mão
de obra escrava suficiente, em vista de muitas fugas terem ocorrido
e resultado na formação de quilombos. Em
1658 os senhores de engenho foram agraciados pela Coroa com moratória
de 6 anos para pagamento das dívidas.
2. Não
bastasse isso, ao se retirarem do nordeste brasileiro os holandeses,
que já dominavam todo o ciclo da produção
e refino do açúcar, implantaram
o sistema nas Antilhas, otimizaram a produção e passaram
a exercer forte concorrência
no mercado açucareiro mundial, resultando na baixa dos preços
praticados pelos engenhos da capitania.
3. O acordo pela
Paz de Haia, celebrado por D. Afonso VI em 1661, registrou
uma vultosa indenização a ser paga aos
holandeses para que estes não retaliassem contra outras
colônias portuguesas
na
África e
Oriente. Os fundos provieram do aumento na carga de impostos vivenciados
na colônia, com efeito maior sobre os já sacrificados
colonos paraibanos.
4. O trabalho para a reorganização
da cidade foi prejudicado pela competição entre os
restauradores que visavam a primazia pelos cargos administrativos,
gerando
embates entre famílias rivais que resultavam em longas pendências
para o preenchimento dos cargos, porquanto a indicação
final demorava
pelo menos 6 meses para ser oficializada por "el-Rei d'além
mar", com
recorrências,
dependendo de quem indicava na "corte
de cá" e quem desenrolava
na Corte de lá.[1]
Visando aumentar a arrecadação
de fundos, em 1665 uma Carta
Régia determinava que o açúcar produzido na
Paraíba fosse embarcado
diretamente
para
Portugal.
Posteriormente, para centralizar o controle da arrecadação,
nova determinação passou a exigir
os embarques pelo porto do Recife. Tal fato prejudicou
ainda mais a economia
da cidade.[2] Como
não
havia embarques de açúcar,
não
havia navios no porto, não havia
escoamento da produção... e não havia, também,
a entrada de mercadorias normalmente trazidas do
reino como o trigo, vinho, queijo, azeite, tecidos e ferramentas.
Esses artigos, forçosamente adquiridos no Recife, tornavam-se
mais caros. Numa carta de 1722, o capitão-mor
João
de Abreu Castel e Branco reclamava:
"(...)
e assim estão
os engenhos tão mal assistidos, que os que em outro
tempo fazião
em huma safra duzentas caixas de assucar não tiram hoje
a quarta parte. E ficando ainda estas sem sahida, se faz cada
vez mayor, e mais irremediavel o danno. (...) e por outra não
tem tido sahida os ditos gêneros por passarem muitos annos
sem que embarquem navios neste porto (...). Daqui nasce huma
continua extração da moeda desta capitania para
a de Pernambuco a donde he necessario irem buscar com mayor despeza
os gêneros
de que cá se necessita (...)"[3]
Entenda-se que essa situação era mais
contundente na cidade de Parahyba,
diferentemente do restante da capitania onde, já no processo de
povoamento das terras sertanejas,
acentuava-se o poder econômico dos criadores de gado.
A ANEXAÇÃO
Como resultado da política "pombalina"[4] para
reestruturação e modernização dos
assuntos fiscais e administrativos do reino, em fevereiro de 1756
o governador
Luiz Antônio Lemos de Brito recebeu uma correspondência
de "el-Rei"
D. José I, decretanto a perda da autonomia da capitania,
anexando-a à de Pernambuco:
Dom José, por graças de Deus, Rei
de Portugal (...) faço saber a vós, Coronel e Governador
da Paraíba que, por se ter
conhecido os poucos meios que há na Provedoria da Fazenda
da Paraíba
para sustentar um governo separado, fui servido, em consulta do
meu Conselho Ultramarino, extinguir o dito governo da Paraíba
e que, acabado o vosso tempo, fique essa mesma Capitania sujeita
ao governo de Pernambuco, pondo-se, na Paraíba, um Capitão-mor
com jurisdição e soldo igual ao que tem o Capitão-mor
da cidade do Rio Grande do Norte (...)
Lisboa, primeiro de Janeiro de mil setecentos e cinquenta e seis...[5].
Em 1759 foi criada a Companhia Geral
de Comércio de Pernambuco e Paraíba, com sede no
Recife e, consequentemente, beneficiando os comerciantes pernambucanos
que já monopolizavam o mercado da região desde a
implantação das
capitanias. Essa situação
perdurou até 1799, quando Fernando Delgado Freire
de Castilho, no governo da capitania, em relatório bem
elaborado e consubstanciado,
defendeu junto à rainha D. Maria I a revisão da "anexação" alegando
vários equívocos existentes no parecer do Conselho
Ultramarino. A Capitania da Paraíba teve, então, reestabelecida
a sua autonomia.
NOTAS
[1]
A contenda entre Lopo Curado Garro e Bento Bandeira de Melo pela
Escrivania da Fazenda, Almoxarifado e Alfândega durou mais
de 20 anos. Ao final, a família Bandeira de Melo tornou-se "proprietária" da
escrivania durante os 150 anos (1647-1798) em que existiu a Provedoria
da Capitania da Paraíba. (cf. Mozart Vergetti
Menezes em "Colonialismo em Ação")
[2]
Para garantir a folha dos serviços de oficiais da Coroa, de militares
e
de eclesiáticos
o Provedor Real da fazenda paraibana, Salvador Quaresma Dourado, chegou ao extremo
de cobrar taxas sobre a carga de minguadas embarcações que aportavam
para
conserto ou abastecimento.
[3]
(AHU_ACL_CU_014,
Cx. 5, D.392) documento encontrado no AHU- Arquivo Histórico Ultramarino
de Lisboa, citado em trabalho de André Cabral Honor
e Carla Mary Oliveira para o Curso de Graduação em História
da UFPB, disponível (26/06/09) em http://cms-oliveira.sites.uol.com.br/artigo_andre_honor_2.html
[4]
O Marquês de Pombal foi, durante 27 anos, o homem forte necessário
ao reinado do fraco D. José
I (1750-1777). Procurou equiparar Portugal a outras potências européias
com reformas administrativas e econômicas; criou companhias monopolistas
de comércio nas colônias; foi a cabeça pensante que
reconstruiu a cidade de
Lisboa
após o terremoto de 1755; como visionário que era, vislumbrou
o crescimento produtivo da região sul e transferiu para o Rio de
Janeiro, em 1763, a sede do governo-geral da colônia que
funcionava em Salvador.
[5]
Citado por Mozart Vergetti de Menezes
em "Colonialismo em Ação", p193. cf IHGP/Ordens
Régias/Códice
1745-1755/doc.157
BIBLIOGRAFIA:
MENEZES, Mozart
Vergetti de -Colonialismo em
Ação
- Fiscalismo, Economia e Sociedade na Capitania
da Paraíba (1647-1755)
Tese de Doutorado.USP.FFLCH.PPGH.2005.disponível
(14/09/2009) em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-06072007-114818
OLIVEIRA, Elza Regis - A Paraíba na crise do século
XVIII
Fortaleza: BNB/ ETENE, 1985.
QUINTAS,
Fátima (org) - A Civilização do Açúcar
Recife.SEBRAE.Fundação Gilberto Freyre.2007
WEHLING, Arno - História Administrativa do Brasil

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